O BOM PASTOR ANUNCIADO PELOS PROFETAS

Bom_Pastor_09052014170930TEMPO DO ADVENTO. PRIMEIRA SEMANA. SÁBADO

I. SE ACONTECER que te desvias para a direita ou para a esquerda, ressoarão atrás de ti, aos teus ouvidos, estas palavras: “Este é o caminho; segui por ele”1. Uma das maiores graças que o Senhor nos pode conceder nesta vida é a de sabermos claramente a senda que nos conduz a Ele e contarmos com uma pessoa que nos ajude a sair dos nossos desvios e erros para retornarmos ao bom caminho.

Em muitos momentos da sua história, o Povo de Deus achou-se sem rumo e sem caminho, num grande desconcerto e abatimento, por falta de verdadeiros guias. Jesus Cristo encontrou assim o seu povo: como ovelhas sem pastor, segundo nos narra o Evangelho da Missa de hoje2.Ao ver as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam extenuadas e abatidas como ovelhas sem pastor. Os seus guias tinham-se comportado mais como lobos do que como verdadeiros pastores do rebanho.

Na longa espera do Antigo Testamento, os Profetas tinham anunciado com séculos de antecedência a chegada do Bom Pastor, o Messias, que guiaria e cuidaria amorosamente do seu rebanho. Seria um pastor único3, que iria à busca da ovelha perdida, vendaria a que estivesse ferida e curaria a doente4. Com Ele, as ovelhas estariam seguras e teriam, em seu nome, outros bons pastores que velariam por elas e as guiariam: Dar-lhes-ei pastores que de verdade as apascentem, e já não haverão de temer mais nem angustiar-se nem afligir-se5.

Eu sou o bom pastor6, diz Jesus. Veio ao mundo para congregar o rebanho de Deus7:Éreis, diz-nos São Pedro, como ovelhas desgarradas, mas agora vos convertestes ao pastor e guarda de vossas almas8; vem o Bom Pastor para recolher o seu rebanho do seu extravio9, para guiá-lo10, para defendê-lo11, para alimentá-lo12, para julgá-lo13, para conduzi-lo por fim aos prados definitivos, junto às águas da vida14.

Jesus é o Bom Pastor anunciado pelos Profetas. NEle se cumprem ao pé da letra todas as profecias. Ele conhece e chama cada uma das ovelhas pelo seu nome15. Jesus conhece-nos pessoalmente, chama-nos, busca-nos, cura-nos! Não nos sentimos perdidos e sem nome no meio de uma humanidade imensa. Somos únicos para Ele. Podemos dizer com toda a exatidão: Ele me amou e se entregou por mim16, Ele distingue a minha voz entre muitas outras. Nenhum cristão tem o direito de dizer que está só. Jesus Cristo está com ele; e se se perdeu pelos caminhos do mal, o Bom Pastor já saiu à sua busca. Só a má vontade da ovelha, o não querer regressar ao aprisco, pode fazer fracassar a solicitude do Pastor. Só isso.

II. ALÉM DO TÍTULO de Bom Pastor, Cristo aplica a si mesmo a imagem da porta pela qual se entra no aprisco das ovelhas que é a Igreja. A Igreja “é um redil cuja porta única e necessária é Cristo. É também uma grei da qual o próprio Deus profetizou ser Pastor, e cujas ovelhas, ainda que conduzidas certamente por pastores humanos, são, não obstante, guiadas e alimentadas continuamente pelo próprio Cristo, Bom Pastor e Príncipe dos pastores, que deu a vida pelas suas ovelhas”17.

Jesus estabeleceu que houvesse na sua Igreja bons pastores para que guardassem e guiassem as suas ovelhas18. Estabeleceu acima de todos e como seu Vigário na terra Pedro e seus sucessores19, e por isso devemos nutrir uma especial veneração, amor e obediência pelo Papa e, em comunhão com o Papa, pelos bispos, como sucessores dos Apóstolos. Cabe-nos rezar insistentemente por eles, para que nunca faltem na Igreja os bons pastores.

Os sacerdotes são bons pastores, especialmente na administração do sacramento da Penitência, por meio do qual nos curam de todas as nossas feridas e enfermidades. “Lembrai-vos – dizia João Paulo II – de que o vosso ministério sacerdotal […] está orientado de maneira particular para a grande solicitude do Bom Pastor, que é solicitude pela salvação de todos os homens […]; que os homens tenham vida e a tenham em abundância, para que nenhum se perca, mas tenham a vida eterna”20.

Cada cristão deve também ser bom pastor dos seus irmãos, especialmente por meio da correção fraterna, do exemplo e da oração. Pensemos com freqüência que, de alguma forma, todos nós somos bons pastores das pessoas que Deus pôs ao nosso lado. Temos obrigação de ajudá-las a percorrer o caminho da santidade e a perseverar na correspondência aos dons e chamadas do Bom Pastor que nos conduz aos pastos da vida eterna.

O ofício de bom pastor é extremamente delicado; exige muito amor e muita paciência21, valentia22, competência23, bem como prontidão de ânimo24 e um grande sentido de responsabilidade25. O descuido no fiel cumprimento desta missão ocasionaria gravíssimos danos ao povo de Deus26: “O mau pastor leva à morte até as ovelhas robustas”27.

“Quatro são as condições que deve preencher o bom pastor. Em primeiro lugar, o amor; a caridade foi precisamente a única virtude que o Senhor exigiu de Pedro para lhe entregar o cuidado do seu rebanho. Depois, a vigilância, para estar atento às necessidades das ovelhas. Em terceiro lugar, a doutrina, para que possa alimentar os homens até levá-los à salvação. E finalmente a santidade e integridade de vida; esta é a principal de todas as qualidades”28.

III. CADA UM DE NÓS necessita de um bom pastor que guie a sua alma, pois ninguém pode orientar-se a si próprio, a menos que tenha uma ajuda especial de Deus. A falta de objetividade, a preguiça e a paixão com que nos vemos a nós mesmos vão obscurecendo o nosso caminho para o Senhor. E sobrevêm então o estancamento espiritual, a tibieza e o desânimo. Pelo contrário, “assim como uma nau que tem um bom timoneiro chega sem perigo ao porto, assim também a alma que tem um bom pastor alcança-o facilmente, ainda que tenha cometido muitos erros”29.

A direção espiritual é necessária para que não tenhamos que dizer no fim da nossa vida o mesmo que diziam os judeus depois de vagarem a esmo pelo deserto: Durante quarenta anos demos voltas em torno da montanha30. Fomos vivendo sem saber para onde íamos, sem que o trabalho ou o estudo nos aproximassem de Deus, sem que a amizade, a família, a saúde e a doença, os êxitos e os fracassos nos ajudassem a dar um passo em frente naquilo que é verdadeiramente importante: a santidade, a salvação. Fomos vivendo sem rumo, entretidos com meia dúzia de coisas passageiras. E tudo isso porque nos faltaram umas metas sobrenaturais pelas quais lutar, um caminho claro e um guia.

Pode, pois, ser necessário confiar a alguém a direção da nossa alma, porque todos carecemos de uma palavra de alento, sobretudo quando desanimamos pelas derrotas no nosso caminhar para Deus. Necessitamos então de uma voz amiga que nos diga: “Vamos lá!, não deves parar, porque tens a graça de Deus para vencer qualquer dificuldade!” Diz-nos o Espírito Santo: Se alguém cai, outro o levanta; mas ai daquele que está só, porque, quando cai, não tem quem o levante31. E com essa ajuda nos recompomos por dentro e conseguimos forças quando já nos parecia que não nos restava nenhuma.

É uma graça especial de Deus podermos contar com essa pessoa amiga a quem podemos abrir a alma numa confidência cheia de sentido humano e sobrenatural. Que alegria podermos comunicar o mais íntimo dos nossos sentimentos – a fim de orientá-los para Deus – a alguém que nos compreende, nos estima, nos abre horizontes novos, nos estimula, reza por nós e tem uma graça especial de Deus para nos ajudar!

Mas é importante recorrer a quem é realmente bom pastor para nós, àquele a quem o Senhor quer verdadeiramente que recorramos. São Lucas conta-nos como o filho pródigo sentiu a necessidade de descarregar o peso que esmagava a sua alma. Também Judas se sentiu esmagado pelo peso da sua traição. O primeiro, porém, dirigiu-se àquele a quem devia dirigir-se e alcançou uma paz que nem sequer podia imaginar; reconstituiu a sua vida. Ao passo que Judas não. Judas devia ter voltado para Jesus, e, apesar do seu pecado, teria sido acolhido e confortado, tal como Pedro. Mas procurou aqueles que não devia, aqueles que eram incapazes de compreendê-lo e, sobretudo, de lhe dar aquilo de que necessitava. A nós que nos importa? Resolvê-lo-ás tu próprio, foi o que lhe disseram.

Na direção espiritual, encontramos o bom pastor que nos dá as ajudas necessárias para não nos perdermos e para recuperarmos o rumo, caso nos tenhamos desorientado no nosso caminhar para Cristo.

Santa Maria, que é a nossa Mãe, mostra-nos sempre a via segura que nos conduz a Cristo.

(1) Is 30, 21; Primeira leitura da Missa do sábado da primeira semana do Advento; (2) Mt 9, 35 a 10, 1 e 6-8 (3) Ez 34, 23; (4) cfr. Ez 34, 16; (5) Jer 23, 4; (6) Jo 10, 11; (7) Mt 15, 24; (8) 1 Pe 2, 25; (9) Lc 15, 3-7; (10) Jo 10, 4; (11) Lc 12, 32; (12) Mc 6, 34; (13) Mt 25, 32; (14) 1 Pe 5, 4; Apoc 7, 17; (15) Jo 10, 3; (16) Gál 2, 20; (17) Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 6; (18) Ef 4, 11; (19) Jo 21, 15-17; (20) João Paulo II, Carta a todos os sacerdotes, 8-IV-1979, 7; (21) Is 40, 11; Ez 34, 4; (22) 1 Sam 25, 7; Is 31, 4; Am 3, 12; (23) Prov 27, 23; (24) 1 Pe 5, 2; (25) Mt 18, 12; (26) Is 13, 14-15; Jer 50, 6-8; (27) Santo Agostinho, Sermão 46 sobre os pastores; (28) São Tomás de Vilanova, Sermão sobre o Evangelho do Bom Pastor, em Opera omnia, Manila, 1922, págs. 324-325; (29) São João Clímaco, Escada do Paraíso; (30) Deut 2, 1; (31) Ecl 4, 10.

 

Fonte: http://www.hablarcondios.org/pt/meditacaodiaria.asp

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