AUMENTAR A NOSSA FÉ

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TEMPO DO ADVENTO. PRIMEIRA SEMANA. SEXTA-FEIRA

I. NAQUELE DIA, os surdos ouvirão as palavras do livro e os olhos do cego verão por entre as trevas e a escuridão. E os mansos se alegrarão mais e mais no Senhor, e os pobres se regozijarão no Santo de Israel1.

A nova era do Messias é anunciada pelos Profetas como uma era cheia de alegria e de prodígios. Mas há uma coisa, uma só, que o Redentor nos pedirá: fé. Sem essa virtude, o Reino de Deus não chegará a nós.

O Evangelho da Missa2 apresenta-nos dois cegos que seguiam o Senhor pedindo-lhe em altos brados que os sarasse: Tem misericórdia de nós, Filho de Davi, dizem-lhe. O Senhor pergunta-lhes:Credes que eu posso fazer isso? Quando lhe responderam que sim, Ele os despediu curados, dizendo-lhes: Faça-se em vós segundo a vossa fé3. Em Jericó, devolveu igualmente a vista a outro cego e disse-lhe: Vai, a tua fé te salvou. E no mesmo instante recobrou a vista e seguia-o pelo caminho4. Ao pai de uma menina morta, assegura-lhe: Não temas, basta que creias e viverá5.Poucos momentos antes, tinha curado uma mulher, enferma há muito tempo, que manifestara a sua fé simplesmente tocando a orla da sua veste; e Ele dissera-lhe: Filha, a tua fé te salvou, vai em paz6.Ó mulher, grande é a tua fé!, dirá a uma mulher cananéia. E a seguir: Faça-se como tu queres7. Não há obstáculos para aquele que crê. Tudo é possível àquele que crê8, diz Jesus ao pai do rapaz que estava possuído por um espírito mudo.

Os Apóstolos comportam-se diante do Senhor com toda a simplicidade. Sabem da sua fé insuficiente em face de muitas das coisas que vêem e ouvem, e um dia pedem a Jesus: Aumenta-nos a fé! O Senhor responde-lhes: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a este sicômoro: arranca-te daí e muda-te para o mar, e ele vos obedeceria9.

Também nós estamos na situação dos Apóstolos; falta-nos fé para vencer a carência de meios, as dificuldades na ação apostólica, os acontecimentos que nos custa interpretar de um ponto de vista espiritual. Se vivermos com o olhar posto em Deus, não precisaremos temer nada: “A fé, se for forte, defende toda a casa”10; defende toda a nossa vida. Com ela podemos alcançar frutos que estão acima das nossas poucas forças; não haverá impossíveis. “Jesus Cristo estabelece esta condição: que vivamos da fé, porque depois seremos capazes de remover montanhas. E há tantas coisas a remover… no mundo, e primeiro no nosso coração!”11

Imitemos os Apóstolos e, com ânimo humilde – porque conhecemos as nossas poucas forças e as nossas covardias –, peçamos ao Senhor que tenha piedade de nós. “Senhor, aumenta-nos a fé!”, dizemos-lhe na nossa oração. Santa Maria, pedi ao vosso Filho que nos aumente a fé, tão fraca e débil em tantas ocasiões!

É com esta confiança que aguardamos o Natal e por isso rezamos com a Igreja: Bem vedes, Senhor, como o vosso povo espera com fé o nascimento do vosso Filho; concedei-nos que cheguemos ao Natal – festa de júbilo e salvação – e que possamos celebrá-lo com alegria transbordante12.

II. A FÉ é o maior tesouro que temos e, por isso, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para conservá-la e aumentá-la. Também devemos, como é natural, defendê-la de tudo o que a possa prejudicar: leituras (especialmente em épocas em que os erros estejam mais difundidos), espetáculos que sujem o coração, provocações da sociedade de consumo, programas de televisão que possam danificar este tesouro que recebemos. Procuremos adquirir uma formação adequada, tanto mais sólida quanto mais difíceis forem os ambientes e situações em que se desenvolver a nossa vida; procuremos rezar com atenção o Credo na Missa dos domingos e festas, fazendo uma verdadeira profissão de fé.

Numa época de confusão doutrinal como a nossa, é preciso vigiar com especial cuidado para não ceder em matérias que, mesmo de longe, digam respeito ao conteúdo da nossa fé, porque “se se cede num ponto qualquer do dogma católico, depois será necessário ceder em outro, e depois em mais outro, e assim por diante, até que tais abdicações acabarão por converter-se em coisa normal e lícita. E uma vez metida a mão para rejeitar o dogma pedaço a pedaço, que acontecerá no fim senão que o repudiaremos na sua totalidade?”13

Se guardarmos a fé e a refletirmos na nossa vida diária, saberemos comunicá-la aos outros. Daremos ao mundo o mesmo testemunho que deram os primeiros cristãos: foram fortes como rocha perante dificuldades inimagináveis. Muitos dos nossos amigos, ao perceberem que a nossa conduta é coerente com a fé que professamos, ver-se-ão movidos a aproximar-se do Senhor pelo nosso testemunho sereno e firme.

Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus14. Que grande promessa para que nos animemos a uma vida apostólica! Confessar Deus diante dos homens é ser testemunha viva da sua vida e da sua palavra. Nós queremos cumprir as nossas tarefas cotidianas segundo a doutrina de Jesus Cristo, e devemos estar dispostos a deixar transparecer a nossa fé em todas as nossas obrigações familiares, profissionais e sociais. Pensemos um pouco no nosso trabalho, nos nossos colegas, nas nossas amizades: reconhecem-nos como pessoas cuja conduta é coerente com a sua fé? Não nos falta audácia para falar de Deus aos nossos amigos? Não nos sobram respeitos humanos? Velamos pela fé daqueles que o Senhor, de uma forma ou de outra, confiou aos nossos cuidados?

III. EM QUALQUER TEMPO devemos ter os olhos postos em Nossa Senhora, que viveu toda a sua existência movida pela fé, mas devemos fazê-lo especialmente neste tempo do Advento, que foi para Ela tempo de espera, de esperança segura, antes de que o Messias nascesse do seu seio virginal. Bem-aventurada tu que creste15, diz-lhe a sua prima Santa Isabel.

Confiança e serenidade da Virgem Maria ante a descoberta da sua vocação. Ela é a Mãe de Deus! É aquela criatura de quem os Livros Sagrados vinham falando desde o começo do Gênesis, aquela que esmagaria a cabeça dos inimigos de Deus e dos homens16, a mulher tantas vezes anunciada pelos Profetas17. Javé olhou para a humildade, para a simplicidade, da sua escrava18.

Serenidade confiante da Virgem ante o silêncio que tem que manter diante de São José. Maria amava a José, e vê-o sofrer19. Mas confia em Deus. É possível que, ao seguirmos a nossa vocação, ou ao atuarmos em cumprimento da vontade divina, temamos fazer sofrer as pessoas queridas. Deus sabe arrumar bem as coisas. “Deus sabe mais!”20, vê mais longe. O cumprimento da vontade de Deus, que sempre exige fé, é o maior bem para nós mesmos e para aqueles com quem convivemos.

Fé da Virgem nos momentos difíceis que precedem o nascimento de Jesus: São José bateu a muitas portas naquela noite santa e a Virgem ouviu muitas negativas. Fé quando têm que fugir precipitadamente para o Egito: Deus que foge para um país estranho…!

Confiança de Maria ao longo de cada um dos dias que perfizeram os trinta anos vividos ocultamente por Jesus em Nazaré, quando não havia sinais prodigiosos da divindade do seu Filho, mas somente um trabalho simples e corrente.

Fé de Maria no Calvário. “A Santíssima Virgem avançou na peregrinação da fé e manteve fielmente a sua união com o Filho até à Cruz, junto à qual, por desígnio divino, permaneceu de pé, sofrendo profundamente com o seu Unigênito e associando-se com entranhas de mãe ao seu Sacrifício, consentindo amorosamente na imolação da Vítima que Ela mesma havia gerado”21.

Maria vive com o olhar fixado em Deus. Pôs toda a sua confiança no Altíssimo e entregou-se a Ele por completo. É o que Ela nos pede: que vivamos com uma confiança inquebrantável em Jesus. E isto porque deseja ver-nos serenos no meio de todas as tempestades, e porque devemos infundir serenidade nos que estão à nossa volta. Maria quer, sobretudo, ver-nos um dia no Céu, junto do seu Filho.

Rezamos com a liturgia da Igreja: Ó Deus, que revelastes ao mundo o esplendor da vossa glória pelo parto virginal de Maria, concedei-nos que veneremos com fé pura e celebremos com amor sincero o mistério tão profundo da encarnação do vosso Filho22.

(1) Is 29, 17-24; Primeira leitura da Missa da sexta-feira da primeira semana do Advento; (2) Mt 9, 27-31; (3) Mt 9, 28-29; (4) Mc 10, 52; (5) Lc 8, 50; (6) Lc 8, 48; (7) Mt 15, 28; (8) Mc 9, 23; (9) Lc 17, 5-10; (10) Santo Ambrósio, Comentário sobre o Salmo 18, 12, 13; (11) Bem-aventurado Josemaría Escrivá,Amigos de Deus, n. 203; (12) Oração da Missa do terceiro domingo do Advento; (13) São Vicente de Lerins,Commonitorium, n. 23; (14) Mt 10, 32; (15) Lc 1, 45; (16) Gên 3, 15; (17) cfr. Is 7, 14; Miq 5, 2; (18) cfr. Lc 1, 48; (19) cfr. Mt 1, 18-19; (20) Álvaro del Portillo, na Apresentação de Amigos de Deus; (21) Concílio Vaticano II, Constituição Lumen gentium, 58; (22) Oração da Missa do dia 19 de dezembro.

Fonte: http://www.hablarcondios.org/pt/meditacaodiaria.asp

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